Entrevista com Orhan Pamuk
O ganhador do Nobel de Literatura de 2006, Orhan Pamuk, escritor Turco que foi e continua sendo perseguido pelos nacionalistas de seu país, sendo até ameaçado de morte no início desse ano, falou sobre a política na obra literária.

Eu considero Pamuk um dos autores mais corajosos que temos hoje em dia. São poucos os que têm peito para enfrentar o conservadorismo do Oriente, ao mesmo tempo em que criticam o Ocidente. Ele é um escritor que exerce, em minha opinião, a função primordial de todos os que fazem literatura: revelar e criticar o que está errado.
Na entrevista, ele fala de seu único romance político, Neve (Companhia das Letras, 2006), afirmando que se esforçou muito para não fazer nenhum julgamento moral das personagens, pois acha que já existe muita moralidade barata na escrita de ficção política.
E ainda admite:
Se você olha o corpus todo de romances, a política não é o tema mais interessante. Esses temas são amor, felicidade, vida burguesa, o significado da vida, objetivos na vida que terminam em desilusão.
Então, a parte “bonita” da história aparece quando ele diz que “servir uma causa acaba com a beleza da literatura”. Vocês concordam com isso? Ele diz, em outras palavras, que se a literatura buscar uma função social — de crítica, por exemplo — ela perde sua beleza.
Ora meu caro, você pode ser o ganhador do Nobel, mas não é preciso ler muito para perceber que a literatura já “serve uma causa” muito importante, essa causa é o imaginário da humanidade, o ideal de civilização que muitos de nós desejamos alcançar.
A partir disso eu pergunto: É possível impedir que a literatura tenha esse efeito? Eu acredito que não, porque aí ela simplesmente deixaria de existir.
Tudo bem em dizer que “A arte do romance é antipolítica”, mas estamos falando de política, algo que gera opiniões tão controversas, que sequer permite chegar a um acordo, muitas vezes. Admito que a literatura também possa ser muito controversa, mas ao contrário da política, é estimulada por algo muito mais forte do que a razão ou a experiência: a paixão.
Política numa obra literária é um tiro de pistola no meio de um concerto, um negócio rude, mas impossível de ignorar. Estamos prestes a falar de coisas muito feias.
A citação de Stendhal que introduz o romance Neve, é muito verdadeira. É impossível ignorar qualquer fator social na literatura, por mais que sejam feios. E isso vai tornar a literatura feia? Na minha opinião, não. E na de vocês?
Via | O Estado de São Paulo
Tags: Literatura Oriental, Orhan Pamuk, Política